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A década do suicídio em Teresina




Cresceu o contingente de mortos voluntários de 1998 a 2008, na capital do Piauí. 553 pessoas tiraram suas vidas no período, de acordo com o Mapa da Violência 2011; os Jovens do Brasil, publicado na última semana (24-fev.), pelo Ministério da Justiça. Entre as 27 capitais, Teresina ocupa a 2ª posição, perdendo para Rio Branco.

O suicídio de jovens apresenta tendência de crescimento no Brasil (4,4 em 1998, para 5,1 suicidas em 100 mil jovens, em 2008), contrariamente ao cenário mundial. Surpreendentemente, em Teresina, as taxas superaram as estatísticas brasileira e mundial: 5,7 para 14,4, o que representa um aumento de 152,3%. A capital saiu da 15ª posição para a 2ª, nessa faixa etária (15-24 anos). Precisamos explicar o motivo desse aumento vertiginoso.

No Piauí, o crescimento também preocupa: da 22ª posição, em 1998, passamos para a 5ª, abaixo, em ordem decrescente, do RS, SC, MS e RR. O estado também ocupa o 5º lugar, quando considerada apenas a faixa entre 15-24 anos. Foram 1508 mortes, na população total.

O Mapa da Violência do Ministério da Justiça ¬¬-aponta o suicídio como a causa de morte violenta que mais cresceu, no Brasil, na década analisada. Caracterizado como mortalidade violenta por causas externas, resultante de lesões autoprovocadas intencionalmente, conforme estabelecido pelos padrões internacionais, o suicídio apresentou acréscimo de 17%, embora apresente números inferiores ao homicídio, em primeiro lugar, e às mortes por acidentes de transportes.

Indicadores sociais não variam sozinhos, nem ao acaso, há, normalmente, correlação com outros fenômenos sociais, psíquicos, biológicos, naturais ou culturais. Uma alteração significativa deve ter ocorrido para provocar o aumento das taxas de mortes violentas no Piauí, e em Teresina, especialmente. Não houve mudanças climáticas radicais, tampouco uma revolução social ou movimento cultural digno de nota; não temos notícias de mudanças na alimentação ou nos caracteres genéticos da população.

O que há são sinais de negligência governamental: o suicídio jamais foi tratado, no estado, como sério problema de saúde pública, conforme recomenda a Organização Mundial de Saúde. Nosso sistema de saúde não possui a menor estrutura para orientar, acompanhar e assistir os fragilizados pela angústia que cerca o drama do suicídio. O programa de combate ao suicídio da OMS, o SUPRE, lançado em 1999, revela que indivíduos não exitosos na tentativa de suicídio, se não forem acompanhados e se não receberem cuidados, voltam a tentar até atingirem a letalidade. Quantas dessas 1508 pessoas tentaram mais de uma vez o suicídio, muitas a pedir socorro, poderiam estar vivas, se houvesse um serviço de saúde, no Piauí, preparado para cuidar delas? Qualquer um pode se tornar vulnerável emocionalmente, mas isso pode ser trabalhado, tratado, e a vida pode voltar a ter sentido.

Essa década trágica é quase totalmente concomitante ao duplo mandato do governo do PT. Poucos acontecimentos, no estado, possuem essa significação. Anos de promessas e geração de expectativas de bem-estar e felicidade, antes de assumir o poder, resultaram em completa frustração.


Sem desconsiderar a importância dos danos psiquiátricos na eclosão dos suicídios, é impossível negar a omissão política de um governo, cuja ignorância e apatia ante os problemas do estado beiraram a irresponsabilidade.


*O autor estuda o suicídio em Teresina, como tema de seu doutoramento na PUC-SP.

Publicado no Jornal O Dia e no blog: www.professorbeneditoufpi.blogspot.com

Data de Criação: 26/04/2011 09:51:40
Última Modificação: 26/04/2011 09:51:46
Autor(a): Benedito Carlos de Araújo Júnior
Professor do Dept. de Ciências Sociais/UFPI