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O Estado Palestino e o 11 de setembro: o que é o terror e quem o pratica?


A derrubada das torres gêmeas norte-americanas em 2001 elegeu definitivamente o mês de setembro como o período em que mais discutimos sobre o terror no mundo. O recente aniversário do fato e a última Assembléia da ONU que teve por foco a discussão da criação do Estado Palestino vieram acentuar a polêmica.
Desde 1980, quando comecei a acompanhar sistematicamente a querela do Oriente Médio, tem sido praxe justificar as investidas contrárias à luta histórica de libertação dos palestinos – a qual consumiu a energia de Yasser Arafat e de tantos outros e hoje mobiliza o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas – argumentando-se que o mundo não pode estimular o terror. Simples assim. Como se o entendimento do que venha a ser o terror estivesse acima de qualquer controvérsia, enredado numa definição pétrea, e como se os terroristas fossem apenas aqueles a quem EE.UU. e Israel nomeiam à vontade, sem maior preocupação ou cuidado.
Sou daquelas que acreditam que muitos são os enfoques que podemos dar ao non sense do terror, também àquele que em setembro de 2001 sacudiu as torres gêmeas do World Trade Center e levou ao chão a excessiva autoconfiança da nação americana do norte. Creio que nenhuma abordagem que pretenda averiguar o fenômeno com critério, procurando entendê-lo e/ou explicá-lo minimamente, pode limitar-se ao epifenômeno. Penso que também é simplista centrar-se apenas na busca de culpados entre os governos do morto Saddam Hussein, dos grupos Taleban, Hezbollah, Hamas ou Al Qaeda. Sequer satanizar seus líderes; até porque uma parte deles, como sabemos, foi financiada, estimulada e treinada pelos próprios EE.UU. quando isso lhes era conveniente. Certamente os responsáveis por ações que atentam contra a vida, individual e coletiva, devem ser julgados e punidos exemplarmente pela sociedade e pelos tribunais, mas há muito mais a compreender e fazer, há muitos outros atores a implicar, se quisermos construir um argumento capaz de acenar para um futuro de paz para os EE.UU., para o Oriente Médio, para a humanidade.
Procurando compreender o terror na sua complexidade, talvez as primeiras perguntas que devemos nos fazer sejam: por que existe o terrorismo na escala que se apresenta hoje? Quem são os terroristas, para além dos muçulmanos? Onde eles agem, além do Oriente Médio e dos EE.UU.?
E aí será imperativo rememorar alguns fatos. Como parte da sua política internacional de conquista de mercados, territórios e diferencial bélico os EE.UU. têm interferido nas disputas internas de vários países mundo afora, conseguindo constituir governos ou oposições que defendem, no seu território, as teses americanas ou pelo menos, são simpáticos às mesmas. Tem sido assim na América do Sul - e nós, brasileiros, sabemos muito bem o que significou ter o nosso processo de consolidação democrática interrompido pelos interesses norte-americanos -, tem sido assim na África, tem sido assim no Oriente Médio. Os meios utilizados nem sempre são pacíficos ou apenas político-diplomáticos, mas freqüentemente conflituosos e militares.
Não é novidade, o país em questão adota esse caminho como estratégia de geração de mercados para a sua agressiva produção bélica que vai de supersônicos a minas, força motriz de uma economia sustentada na política do conflito. Sempre que concluída, pelo Estado, a ‘missão’ de tutoria dos povos em cada guerra declarada, os governos norte-americanos e seus representantes locais cedem lugar para a ‘segunda força de ocupação’: as empresas de ‘reconstrução’. Porém, no noves-fora das operações, boa parte do que vemos acontecer resta pouco explicada.
Por exemplo: foi sob a estratégia de ‘destruir para reconstruir’ que o governo do Tio Sam treinou e armou Saddam Hussein para combater os curdos e iranianos; treinou a armou Bin Laden e o exército Taleban para que praticassem o terrorismo contra a extinta União Soviética que ocupava o Afeganistão. Na África têm armado irmãos de fome e de abandono para se matarem no Congo, em Angola, Serra Leoa e tantos outros países sem esperança. Mundo afora, os EE.UU. ainda apoiaram os generais Pinochet (Chile) e Videla (Argentina); Noriega (Panamá); Papa Doc (Haiti); Sukarno (Indonésia); Ferdinand Marcos (Filipinas) e a própria ditadura militar na nossa pátria amada, Brasil. Todos esses governos se pautaram pelo cerceamento de liberdades das populações, pela abdicação de projetos que priorizassem o desenvolvimento local e, de resto, pela adoção de apoio quase irrestrito à política de mercado e militar implementada pelos norte-americanos. Eles mesmos sobejamente beneficiados com o modelo de modernização que ajudaram a implantar em cada região onde apadrinharam ditaduras.
Com relação ao seu envolvimento direto nos conflitos, a nação norte-americana fez-se sobre sangue e cadáveres. Dos índios habitantes primitivos do seu território às ações mais recentes do século em curso. A ação armada daquele país provocou a morte de mais de 180 mil pessoas ao explodir a bomba atômica contra Hiroshima e Nagasaki. Na década de 60, durante a guerra do Vietnã, os EE.UU. ceifaram milhares de vidas vietnamitas e de soldados norte-americanos; promoveram a destruição de incontáveis aldeias de camponeses, sem falar da cruel utilização do napalm, cuja intenção de uso, longe das motivações puramente militares, restringia-se a dizimar comunidades civis, supostamente responsáveis por apoio aos soldados aos soldados vietcongues. Na Guerra do Golfo contra o Iraque, Bush-pai não poupou alvos civis, chegando, inclusive a bombardear hospitais, escolas e campos de refugiados, como denunciaram fontes alternativas da imprensa, visto que a mídia internacional silenciou diante do fato.
Por meio da recente e espetaculosa Guerra contra o Iraque, oficialmente justificada pela novela das propaladas armas químicas e biológicas jamais encontradas, Bush-júnior repetiu a dose da política de terra arrasada naquele país assentado sobre uma bolha sem fim de petróleo, abrindo caminho para o gesto atual de Obama contra a Líbia. No caso Iraque cumpre lembrar que nenhum gesto de reprimenda ou ressalva foi feito nem por parcelas da sociedade estadunidense, nem pela imprensa internacional, nem pela ONU ou por nenhum governo dos chamados países livres. Coube ao diretor Paul Greengras denunciar a farsa das armas químicas de Saddam Hussein, no seu filme Zona Verde.
Mas Bush-júnior não ficou só nisso. Dentre tanto gestos desatinados sem dúvida, um que provocou considerável preocupação entre os líderes, analistas políticos e ativistas de todo o mundo foi quando simplesmente desconsiderou todos os tratados celebrados entre os países ditos civilizados, como o Protocolo de Kyoto, que definia metas em relação à proteção do meio ambiente, o acordo com a Rússia sobre a redução de armamento nuclear e a Conferência de Durban, sobre a prática do racismo e xenofobismo no mundo. Pelo contrário: Bush-júnior tentou reativar com força o projeto Guerra nas Estrelas, o que foi recebido internacionalmente com apreensão e medo de que o mundo mais uma vez passasse a conviver com a idéia de guerra iminente e de proporções catastróficas. Claro está que em um mundo efetivamente sem uma força militar capaz de obstacular os planos americanos de hegemonia, sem a possibilidade concreta de uma guerra final contra qualquer das nações hoje existentes, a reativação do projeto Guerra nas Estrelas teria uma única e palpável justificativa: dar algum fôlego ao moribundo parque industrial bélico americano. Felizmente a recente quebradeira que se abateu sobre aquela parte do norte das Américas impediu maiores vôos.
Mas, retornando ao momento presente e à Questão Palestina, ao 11 de setembro, Israel, terror etc., não sem revirar um pouco mais as páginas da história, encontramos que foram também os EE. UU. que, após a Segunda Guerra Mundial, deram suporte à constituição do Estado de Israel à revelia das reivindicações palestinas em relação àquele território, o que intensificou o conflito que perdura até hoje e que figura como ponto nodal da atual Assembléia da ONU. De lá até hoje Israel recebe total proteção, consumada nesses dias atuais com a promessa pública de Obama de veto à aceitação da Palestina como o 194º país membro das Nações unidas, demanda apresentada por Abaas à Assembléia da ONU. Lembremo-nos: em 1982 Israel invadiu o Líbano, com vista à expulsão da OLP (Organização para a Libertação da Palestina) daquele país, e com isso provocou a sumária morte de 17.500 libaneses e palestinos, a grande maioria de civis, e destruiu completamente o país que até então era considerado como a Suíça do Oriente Médio. Logo após esta invasão, aliados paramilitares de Israel assassinaram 1.800 pessoas nos campos de refugiados palestinos de Sabra e Chatila – todos civis. Essa postura do exército de Israel foi comandada pelo então Secretário de Defesa de Israel, Ariel Sharon, que anos mais tarde viria a ocupar o posto de Primeiro-Ministro daquele país. O massacre de Sabra e Chatila, termo com o qual passou a ser conhecido, teve o aval direto do Secretário de Estado Americano da época, Alexander Haig.
Atualmente, mantendo a política do absurdo, Netanyahu avança na ocupação da Palestina por meio dos assentamentos e apenas se dispõe a retomar a mesa de negociação de paz no caso dos palestinos abdicarem de qualquer exigência, especialmente do reconhecimento do seu Estado junto à ONU. Fazendo coro e reforçando o gesto, a diplomacia estadunidense tem trabalhado fortemente para derrubar, no voto, o apoio à Palestina para minorar o já avantajado desgaste de Obama, no caso da efetivação do veto prometido.
Eis o tabuleiro do terror no mundo. Esse rápido e superficial apanhado, como podemos ver, nos alerta para a constatação de que o terror não tem uma única face. Do modo como entendo o sofrimento causado e, por outro lado, o direito que temos à liberdade, à vida e à esperança, todos os fatos referidos são manifestações do terror, da barbárie contra a paz e a liberdade. Contra a pessoa e o direito à existência humana em plenitude. Terror produzido pela ganância, intolerância, arrogância e intransigência.
Nesse momento em que o espetáculo midiático quase irmana na tela as comemorações do 11/09 e a luta diplomática em torno da criação do Estado Palestino parece que as imagens e discursos querem dizer algo mais que dissipar o trauma norte-americano do atentado; mais que lamber as feridas de algo que verdadeiramente não podemos aceitar. A posição de Barack Obama ao apoiar a ofensiva de Israel sobre o território palestino, ao manifestar-se contra o reconhecimento do mesmo pela ONU, retoma o antigo discurso do terror de mão única e de performance isolada. Isto é, ato de terror é algo similar a Oriente, a muçulmano.  É como se o espetáculo dissesse: ‘vejam o que fizeram; como podemos deixá-los livres?’.
Na verdade, o gesto do Presidente encontra fundamento no tabuleiro da geo-política internacional e nos mapas dos grandes negócios do capital especulativo sem pátria. Sabemos que a escolha, pelo contrário, dá seqüência ao terror dos dois lados e, certamente, potencializa a problemática da já delicada situação do Oriente Médio. E aqui precisamos não esquecer: é assentado no discurso de defesa da democracia que os norte-americanos tomam parte nos atuais conflitos do Egito, da Líbia... por que a autonomia, a democracia não pode chegar também para os palestinos?
A hora é de fazermos urgentemente o dever de casa. O horror e o barulho da queda do World Trade Center, repetido ad nauseum nas últimas semanas, precisaria ser o limite do absurdo mundial generalizado com o qual estamos convivendo. Infelizmente, mesmo padecendo internamente das conseqüências de sua política internacional, os EE.UU. ainda não aprenderam. Barack não inovou. Disse Yes, we can!, mas, ao fim, não disse a que veio. Não mostrou o que poderia ou porque poderia, repetiu seus antecessores, os mirrados Bush.
Felizmente, parece que o Brasil aprendeu. Justiça seja feita: Lula foi capaz e ousado o suficiente para, em plena Universidade de Jerusalém, alertar para a “paz impossível sem levar em conta os legítimos interesses e pretensões palestinos a um Estado soberano e livre”, caminho adensado com a atual manifestação corajosa de Dilma Roussef a favor da liberdade dos palestinos. Senti orgulho de ser brasileira.
Que outros líderes mundiais despertem para uma proposta diferente de existência no mundo, onde se respeite a autonomia dos povos e priorize a convivência pacífica, independente da religião, cor, cultura, status social, poços de petróleo e jazidas de ouro e diamante. Que outros líderes mundiais se manifestem contra todos os tipos de terror e todos os tipos de terroristas, seja o terror impetrado por motivações religiosas e executado pelo homem-bomba na solidão do gesto individual, seja o terror impetrado pelos senhores da guerra, protegidos pelos bunkers a milhares de quilômetros dos inocentes alvos destruídos. Nada o justifica: venha de onde vier, apelidado de qualquer maneira e independente da motivação.
 

Data de Criação: 10/10/2011 16:31:15
Última Modificação: 10/10/2011 16:32:12
Autor(a): Valéria Silva
É Doutora em Sociologia Política. Professora do Programa de Pós-Graduação em Antropologia e Arqueologia da UFPI.