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Rumos d’África



(Versão ampliada de artigo publicado em “O POVO”, Fortaleza, 06.03.2011)
 
 
Acompanho os que entendem as rupturas políticas no Norte da África como resultado da falta de perspectiva para milhões de pessoas aglomeradas em curto espaço de tempo em grandes centros urbanos e vergastadas por governos corruptos e repressores herdados das lutas anticoloniais.


Os manifestantes, majoritariamente desempregados, mal-nutridos, jovens, convocados por “torpedos” de origens desconhecidas, não reagiram instantaneamente a chamados políticos, religiosos ou étnicos; não explodiram frente a escândalos nos negócios públicos ou por querer maior participação política como pretende fazer crer o noticiário internacional: partiram para o quebra-quebra com os aumentos de preços do transporte, da comida e da energia elétrica. Os arranjos políticos em curso não estavam programados pelos que foram as ruas.


Para conter a turba furiosa, governantes revogaram tardiamente aumentos de tarifas, cortes de subsídios de alimentos básicos e prometeram respeito aos manifestantes. Subitamente afastados, restaram aos interinos entender-se com oposicionistas visando institucionalizar “aberturas” de autocracias que, na véspera, se pretendiam eternas. Até agora, não há indicações de que as mudanças de regime acompanharão modelos de democracia consagrados no Ocidente.


A Líbia, evidentemente, foge à tendência: sua posição estratégica como produtora de petróleo atiçou a ingerência externa, excitando a direita européia. Gadaffi, que nos primeiros anos de governo fugiu da ortodoxia de descaso social e não se submeteu aos países centrais, deixou seus compatriotas com qualidade de vida diferenciada do conjunto africano. Posteriormente, seguiu o rumo geral, dando as costas ao povo. Hoje encara intervenções “humanitárias” de potências e tenta escapar ao destino de Saddam Hussein. Pouco importa que, desde 2006, tenha saído da lista negra dos Estados Unidos.


As situações variam de um canto para outro, mas o conjunto reflete a fragilidade dos Estados pós-guerras coloniais. Cabem profundas reformas políticas e novas orientações governamentais neste espaço que representa mais de 20% de terra firme do planeta e tesouros imensuráveis. O velho discurso dos dirigentes políticos, nunca assumido na prática, de que os recursos naturais, em particular o petróleo e os minérios, devem servir a sociedade, virou fumaça. Aprofundando as tensões mundiais, as mudanças em curso repercutirão nos lucros das poucas grandes empresas petrolíferas e nas instáveis “economias centrais”; o domínio militar sobre as bordas da Europa e, em particular, o futuro de Israel, ficará mais incerto. Não por piedade nem por amor a democracia o desmoralizado Sarkozy mal vê a hora de exibir a eficiência de aviões de caça para os quais não encontra mercado. 


Escrevendo durante visitas a Angola e Moçambique, a questão que me ocorre é se as explosões mediterrâneas, que geram tantas interrogações sobre as relações mundiais de poder, atravessarão desertos e selvas, contaminando o conjunto africano. Busco resposta nas ruas, nas conversas com taxistas, nas TV e jornais locais, nas universidades de Maputo e de Luanda, nos irritantes relatos do Banco Mundial, nas ridículas estatísticas que pretendem mostrar a multiplicidade étnica e, finalmente, na forma como as agitações africanas aparecem na grande imprensa internacional.


Minha impressão é de que a África Austral é uma panela de pressão submetida ao fogo. A explosão é certa se o fogo continuar aceso. As cidades crescem em ritmo frenético com populações recém-destribalizadas e sem motivos para acreditar nas promessas dos Estados resultantes da luta anticolonial e das intermináveis guerras civis (ou tribais?).


A variedade e a complexidade das situações dos 53 países africanos e dos enclaves europeus são evidentes. Há de um tudo: de reinos tribais reconhecidos pela ONU a governos que se reclamam socialistas, mas que estão em mãos de castas antigas ou recentes. O que parece indiscutível é o fracasso generalizado na construção de sociedades minimamente unidas e capazes de legitimar Estados com territórios delimitados conforme o modelo ocidental. Sociedades tribais, vadeando naturalmente rios e transpondo serras, não podem compreender que passam de um país a outro, com legislações e soberanias distintas. Os peixes, as aves, as árvores de ambas as margens de um rio demarcador de “fronteiras nacionais” são de uso comum. Não há praticidade em demarcações arbitrárias de limites territoriais quando, dos dois lados de uma fronteira, deuses, costumes, línguas, valores e códigos são os mesmos. Nenhum outro continente revela mais tensões fronteiriças, campos de refugiados e explosivos enterrados no chão.


Na África, é fácil ver o Estado; difícil é ver a nação, a entidade na qual os ocidentais acreditamos sobrepor-se às diferenças domésticas. Os aparelhos estatais pós-coloniais africanos ficaram sob o controle de grupos escancaradamente voltados para o autobenefício. Os governantes passam a impressão de que a venda das riquezas naturais é o primeiro e o derradeiro ponto de suas agendas. É difícil encontrar exemplos indiscutivelmente bem sucedidos de programas, mesmo setoriais, de desenvolvimento sócio-econômico.  (Aliás, é incômodo traduzir o valor intrínseco do termo “desenvolvimento” para a África profunda). Até a exploração da mão de obra, que marcou os cinco últimos séculos da historia africana, parece secundária: o que importa agora são os dividendos do petróleo, dos minérios estratégicos e da madeira das florestas. Os empreendimentos agrícolas, nos quais os chineses estão particularmente envolvidos, são concebidos sem preocupação com a oferta de emprego. Quanto ao estupendo meio ambiente africano, nem falar! Suecos, noruegueses e dinamarqueses, ostentando a melhor qualidade de vida do mundo e posando de defensores do meio ambiente investem bilhões nas monoculturas que lhes interessam.


O quadro em Angola talvez seja o mais crítico e evidente por conta do dinheiro provindo do petróleo e dos diamantes. Angola detém a segunda maior reserva de petróleo da África e um dos mais importantes PIBs do continente sem que isso se reflita nas condições de vida do povo. O MPLA, que governa o país desde a derrota das tropas portuguesas, não passa hoje de um agrupamento nepotista, corrupto e arrogante. O presidente da república, Eduardo Santos, no poder desde 1979, posta-se como um monarca anacrônico, com domínio sobre tudo e sobre todos. Em reuniões ministeriais, acomoda-se numa espécie de trono. Seu pretenso discurso nacionalista é desmoralizado pela pavorosa mistura, em Luanda, de imensas e tenebrosas favelas ao lado de condomínios residenciais de ricaços que podem causar inveja aos milionários de qualquer parte do mundo. Em Luanda, na luta pelo pão de cada dia, multidões de vendedores ambulantes arrastam bugigangas chinesas, bacias de peixe fresco, verduras e frutas em ruas imundas, disputando espaço com potentes e sofisticados carros importados. A desigualdade é acintosa e os efetivos da “segurança” privada superam largamente os do Estado. A situação é atenuada pela ausência de cobrança de tarifas de água e luz dos que ganham menos. É curioso ver casebres refrigerados com ar condicionado.


Em Maputo, o quadro urbano parece menos caótico, apesar da grande agitação ocorrida em setembro de 2009, quando, em três dias de absoluto caos, os ricos e remediados foram sitiados em suas casas. Ocorreram depredações e vandalismo em larga escala sem que o governo tivesse com quem negociar uma trégua. O movimento arrefeceu por conta da repressão, de notícias sobre a revogação de aumentos dos preços e da falta de bandeiras políticas. Agora, os jornais favoráveis ao governo tentam mostrar calmaria e vender esperança. As conversas com meus colegas professores, entretanto, são permeadas de interjeições e interrogações inquietantes.


Duas manchetes de jornal nos dias em que percorri as ruas de Maputo dão a medida da situação do país: a doação do governo japonês de algumas toneladas de arroz para o governo distribuir com os mais pobres e a doação de um pequeno avião Cessna pelo governo português para treinar pilotos da Força Aérea Moçambicana. O país, que dispõe de tantas férteis terras, não logra alimentar seu povo; a FRELIMO, que derrotou heroicamente o colonizador e enfrentou uma longa guerra civil, não dispõe hoje de Forças Armadas verdadeiras. Com mais de 2.500 km de costa no tensionado Oceano Índico, Moçambique não tem uma corveta em condições de operar.
Milhões morreram pela liberdade; milhões continuam vivendo nas condições mais abjetas enquanto poucos esbanjam uma riqueza difícil de avaliar. Procuro em vão, no ambiente político africano, vestígios das imagens que Eduardo Mondlane, Amilcar Cabral, Samora Machel e Agostinho Neto me imprimiram na adolescência de militante contra o colonialismo.


A África é um gigantesco e desafiador laboratório para as ciências sociais. Nossos fundamentos teóricos não foram assentados tendo os africanos em conta, notadamente os negros. Certamente, a chusma de informações enviesadas por meu ocidentalismo conturba a minha visão.


Mesmo sendo do Nordeste brasileiro e conhecendo as gigantescas concentrações de sem-arrimo em São Paulo e no Rio de Janeiro, estranho esta mistura de viço e tristeza, força e singeleza, riqueza e pobreza, graça e desgraça que os africanos revelam ao estrangeiro curioso. O que passa na cabeça desta gente com suas vestes coloridas e seu garboso jeito de andar, com suas extraordinárias musicalidade e expressividade corporal? Que valores sustentam pessoas arrancadas da terra natal pela anarquia capitalista e obrigadas a dormir sem saber se terão o que comer no dia seguinte?


Sobram-me, em últimos termos, cogitações. E, cogitando sobre a panela de pressão africana, a frase de Dilma, "o Brasil não será rico enquanto houver miseráveis" lateja em minha cabeça. A liderança mundial do Brasil passa pela extinção de nossos abismos sociais e por uma nova moralidade em suas relações externas. Que nunca percamos de vista o próprio umbigo nem procedamos, na África, como os “países centrais”!


 

Data de Criação: 21/03/2011 10:12:53
Última Modificação: 21/03/2011 10:12:58
Autor(a): Manuel Domingos Neto
Professor do Núcleo de Estudos Estratégicos da UFF;coordenador do Observatório das Nacionalidades